sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Uma mulher de 27 e um homem de 80


Não, esse texto não é sobre o novo relacionamento amoroso do fundador da Playboy. Até porque ele tem mais de 80 anos.
Esse texto é o retrato do que ocorreu ontem.
Eu tinha uma reunião de trabalho à tarde em Búzios.
Entrei no ônibus, na rodoviária do Rio de Janeiro, e sentei feliz no meu lugar: janela! Não simpatizo com assentos do corredor.
O ônibus estava cheio, mas o assento ao lado do meu vazio.
Confesso que fiquei feliz. Quem vai assumir que não ficaria, hein?
Chegaram duas pessoas: um senhor e uma senhora.
Pensei “um dos dois vai sentar aqui”.
Começou um debate entre eles:
Senhora: - Eu to no 8, mas a minha filha está aqui. O senhor pode trocar comigo?
Senhor: - Posso.

O senhor sentou ao meu lado. Ele estava todo vestido de branco, com cachimbo no bolso da camisa. Com uma mão segurava a mochila e com a outra um copo de suco. Embrulhou o copo de suco com um saco plástico (para não vazar, imagino), colocou o cinto de segurança e resmungou baixinho algo que não entendi.

Eu: - Tudo bem, senhor?
Ele: - Tudo. É que eu não gosto de corredor.
Eu: - Quer trocar comigo?
Ele: - Não precisa. Obrigado. Eu gosto da janela porque é mais fácil para apoiar a cabeça para dormir.
Eu: - Sei bem como é...
Ele: - Mas tudo bem. Você vai ver... vou dormir daqui a pouco. Talvez eu ronque, ta?
Eu: - Ah, tranquilo. Eu vou dormir também. Nem vou reparar.
Ele: - Mas sabe que, para dormir, eu tenho que fazer palavras cruzadas antes. Assim, o sono chega.
Eu: - Eu não consigo... Enjôo muito com qualquer coisa no ônibus. Prefiro dormir logo.
Ele: - Ah, é? Mas é questão de costume. Tenta ler um pouquinho num dia, depois lê mais um pouquinho no outro dia, você vai ver... eu sempre li muito no ônibus. Sou professor e trabalhei em vários bairros do Rio de Janeiro. Nunca quis dirigir, nem comprar carro.
Eu: - Entendi.

Parei de falar na expectativa de conseguir dormir e ainda mentalizei “tomara que ele, realmente, durma. Não to muito a fim de interação, ainda mais por três horas de viagem”. Porém, ele continuou. Perguntou sobre o motivo da minha viagem e... pronto. Começamos a conversar sobre milhares de temas.

Ele tem 80 anos. Trabalhou a vida inteira como professor de inglês. Sabe fluentemente latim e alemão. A esposa mora perto de Búzios. Como ele ainda trabalha, passa metade da semana aqui no Rio e metade lá. Diante da minha não simpatia pelo inglês, começamos a conversar sobre o que eu poderia fazer para, finalmente, sair do intermediário para o avançado. Por causa da impossibilidade de eu fazer um curso, ele insistiu que eu deveria ver filmes e ler livros/revistas em inglês. Mesmo que eu não entendesse nada. Segundo ele, o cérebro começa a entender. Depois, eu precisaria comprar um dicionário. Enfim, foram várias dicas preciosas, inclusive de como ser um(a) bom(a) professor(a).

Falamos de política, da história dos bairros do Rio de Janeiro (ele trabalhou em Bangu na época da construção da Vila Kennedy), das mudanças tecnológicas, de relacionamentos pessoais, ele me contou da esposa, dos filhos e dos netos, eu falei do meu namorado, falamos de Deus, religião, sociologia e fomos parar em psicologia... Freud, Jung e Reich. Ele tem (e leu) todos os livros de Freud. Até falamos do cachimbo que, segundo ele, é o seu parceiro há anos.

O ônibus deu uma parada. Aproveitei para almoçar. Quando voltei, recebi um presente do senhor: uma revista em inglês.

Ele: - Para você aperfeiçoar o seu inglês. Aposto que em seis meses você estará muito bem, quase no nível avançado.

Continuamos a conversa como dois tagarelas falando sobre um milhão de temas e, quando chegamos, nos despedimos:

Eu: - Viu? O senhor não dormiu. Nem fez tanta diferença assim corredor e janela!
Ele: - Viu? A senhorita não dormiu e não enjoou.


Quando vi aquele senhor indo embora, pensei “nossa! 80 anos???? Agora que me dei conta! 80 anos!!! 80 anos e continua dando aulas, 80 anos e mora metade da semana sozinho, não conta com a ajuda de ninguém, é independente, viaja semanalmente para passar alguns dias com a esposa, consegue andar tranquilamente e, como ele mesmo disse, faz questão de se renovar sempre, conhecendo pessoas novas, discutindo diversos temas, lendo bastante... e eu tenho 27? Gente, ainda posso viver mais de 53 anos super bem!!!”

E, assim, fui saltitante para a reunião, empolgada de ter tido o privilégio de conversar por mais de três horas com um senhor de 80 anos, que é O verdadeiro exemplo de como envelhecer bem.

4 comentários:

  1. Veve, que legal que você consiga se relacionar tão facilmente com pessoas desconhecidas. E que legal que você consiga extrair experiências positivas desses encontros. Que velhinho interessante! Belo diálogo! Belo relato! Beijos

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  2. Quem diria que uma viagem sem graça se tornaria numa lição de vida! Existem várias pessoas com 80,90 anos e histórias belíssimas para contar. O importante é descobri-las! Beijos e saudades

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  3. O legal é pensar que se qualquer detalhe fosse diferente: a senhora não pedisse pra trocar o lugar, o senhor não reclamasse do corredor, a conversa talvez não tivesse acontecido. São as supresas inevitáveis da vida!

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  4. Belo início, Vê! Você e os velhinhos :)
    Ansioso esperando mais!
    Beijo

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