Não, esse texto não é sobre o
novo relacionamento amoroso do fundador da Playboy. Até porque ele tem mais de
80 anos.
Esse texto é o retrato do que
ocorreu ontem.
Eu tinha uma reunião de trabalho
à tarde em Búzios.
Entrei no ônibus, na rodoviária
do Rio de Janeiro, e sentei feliz no meu lugar: janela! Não simpatizo com
assentos do corredor.
O ônibus estava cheio, mas o
assento ao lado do meu vazio.
Confesso que fiquei feliz. Quem
vai assumir que não ficaria, hein?
Chegaram duas pessoas: um senhor
e uma senhora.
Pensei “um dos dois vai sentar
aqui”.
Começou um debate entre eles:
Senhora: - Eu to no 8, mas a
minha filha está aqui. O senhor pode trocar comigo?
Senhor: - Posso.
O senhor sentou ao meu lado. Ele
estava todo vestido de branco, com cachimbo no bolso da camisa. Com uma mão
segurava a mochila e com a outra um copo de suco. Embrulhou o copo de suco com
um saco plástico (para não vazar, imagino), colocou o cinto de segurança e
resmungou baixinho algo que não entendi.
Eu: - Tudo bem, senhor?
Ele: - Tudo. É que eu não gosto
de corredor.
Eu: - Quer trocar comigo?
Ele: - Não precisa. Obrigado. Eu
gosto da janela porque é mais fácil para apoiar a cabeça para dormir.
Eu: - Sei bem como é...
Ele: - Mas tudo bem. Você vai ver...
vou dormir daqui a pouco. Talvez eu ronque, ta?
Eu: - Ah, tranquilo. Eu vou
dormir também. Nem vou reparar.
Ele: - Mas sabe que, para dormir,
eu tenho que fazer palavras cruzadas antes. Assim, o sono chega.
Eu: - Eu não consigo... Enjôo muito
com qualquer coisa no ônibus. Prefiro dormir logo.
Ele: - Ah, é? Mas é questão de
costume. Tenta ler um pouquinho num dia, depois lê mais um pouquinho no outro
dia, você vai ver... eu sempre li muito no ônibus. Sou professor e trabalhei em
vários bairros do Rio de Janeiro. Nunca quis dirigir, nem comprar carro.
Eu: - Entendi.
Parei de falar na expectativa de
conseguir dormir e ainda mentalizei “tomara que ele, realmente, durma. Não to
muito a fim de interação, ainda mais por três horas de viagem”. Porém, ele continuou.
Perguntou sobre o motivo da minha viagem e... pronto. Começamos a conversar
sobre milhares de temas.
Ele tem 80 anos. Trabalhou a vida
inteira como professor de inglês. Sabe fluentemente latim e alemão. A esposa
mora perto de Búzios. Como ele ainda trabalha, passa metade da semana aqui no
Rio e metade lá. Diante da minha não simpatia pelo inglês, começamos a
conversar sobre o que eu poderia fazer para, finalmente, sair do intermediário
para o avançado. Por causa da impossibilidade de eu fazer um curso, ele insistiu que eu deveria ver filmes e ler livros/revistas em inglês. Mesmo que eu não entendesse nada. Segundo
ele, o cérebro começa a entender. Depois, eu precisaria comprar um dicionário.
Enfim, foram várias dicas preciosas, inclusive de como ser um(a) bom(a)
professor(a).
Falamos de política, da história dos
bairros do Rio de Janeiro (ele trabalhou em Bangu na época da construção da
Vila Kennedy), das mudanças tecnológicas, de relacionamentos pessoais, ele me
contou da esposa, dos filhos e dos netos, eu falei do meu namorado, falamos de
Deus, religião, sociologia e fomos parar em psicologia... Freud, Jung e Reich.
Ele tem (e leu) todos os livros de Freud. Até falamos do cachimbo que, segundo
ele, é o seu parceiro há anos.
O ônibus deu uma parada.
Aproveitei para almoçar. Quando voltei, recebi um presente do senhor: uma
revista em inglês.
Ele: - Para você aperfeiçoar o
seu inglês. Aposto que em seis meses você estará muito bem, quase no nível
avançado.
Continuamos a conversa como dois
tagarelas falando sobre um milhão de temas e, quando chegamos, nos despedimos:
Eu: - Viu? O senhor não dormiu.
Nem fez tanta diferença assim corredor e janela!
Ele: - Viu? A senhorita não
dormiu e não enjoou.
Quando vi aquele senhor indo
embora, pensei “nossa! 80 anos???? Agora que me dei conta! 80 anos!!! 80 anos e
continua dando aulas, 80 anos e mora metade da semana sozinho, não conta com a
ajuda de ninguém, é independente, viaja semanalmente para passar alguns dias
com a esposa, consegue andar tranquilamente e, como ele mesmo disse, faz
questão de se renovar sempre, conhecendo pessoas novas, discutindo diversos
temas, lendo bastante... e eu tenho 27? Gente, ainda posso viver mais de 53
anos super bem!!!”
E, assim, fui saltitante para a
reunião, empolgada de ter tido o privilégio de conversar por mais de três horas
com um senhor de 80 anos, que é O verdadeiro exemplo de como envelhecer bem.
Veve, que legal que você consiga se relacionar tão facilmente com pessoas desconhecidas. E que legal que você consiga extrair experiências positivas desses encontros. Que velhinho interessante! Belo diálogo! Belo relato! Beijos
ResponderExcluirQuem diria que uma viagem sem graça se tornaria numa lição de vida! Existem várias pessoas com 80,90 anos e histórias belíssimas para contar. O importante é descobri-las! Beijos e saudades
ResponderExcluirO legal é pensar que se qualquer detalhe fosse diferente: a senhora não pedisse pra trocar o lugar, o senhor não reclamasse do corredor, a conversa talvez não tivesse acontecido. São as supresas inevitáveis da vida!
ResponderExcluirBelo início, Vê! Você e os velhinhos :)
ResponderExcluirAnsioso esperando mais!
Beijo